Ciência com Consciência


A Verdade sobre os Isotônicos



Os isotônicos são considerados como um complemento essencial para quem pratica exercícios físicos, mas evidências sobre esse ponto de vista são escassas.

Os atletas são bombardeados com orientações sobre o que devem beber e quando durante o exercício. Mas os benefícios dessas bebidas durante a atividade são notícias relativamente novas, visto que na década de 1970 os maratonistas eram desencorajados a ingerir líquidos por medo de que isso os atrasasse, diz Tim Noakes, professor da área de exercícios e ciências do esporte da Cape Town University.

A busca pelo benefício da hidratação no esporte começou por empresas que patrocinaram cientistas para realizar esses estudos, a primeira bebida esportiva foi fabricada em 1960, continha água, sódio, açúcar e fosfato monopotássico com um toque de aroma de limão.

A gatorade foi desenvolvida para prevenir e curar a desidratação e cãibras musculares, sendo assim melhorando o desempenho esportivo. Houve um rápido aumento do consumo, chamando atenção para as multinacionais, como a Coca-Cola, GlaxoSmithKline e a PepsiCo que comprou a Gatorade em 2001.

Segundo Noakes “Tornou-se comum os atletas afirmarem que o motivo pelo qual eles corriam mal durante uma corrida era por causa da desidratação, e não porque treinaram muito pouco ou em excesso. Essa foi uma medida do sucesso da indústria em condicionar os atletas a acreditarem que o que eles bebiam durante o exercício era um fator determinante do seu desempenho como seu treinamento ”

Muitas das pesquisas científicas sobre os isotônicos são financiadas e apoiadas pelas próprias empresas dos produtos, buscando obter maiores aprovações do benefício do uso dessas bebidas.

VENDENDO CIÊNCIA
Desde então as empresas vêm buscando estratégias para promover a ciência por trás dos seus produtos, com o intuito de dar mais credibilidade aos seus benefícios. Em 1985, a Gatorade montou seu próprio Gatorade Sports Institute (GSSI) para conduzir e publicar pesquisas sobre as bebidas esportivas.

“A ciência que entra nas nossas marcas é uma vantagem competitiva. A Lucozade, por exemplo, está sujeita a mais de 100 pesquisas clínicas ”

ENTENDENDO A SEDE
A desidratação de fato prejudica o desempenho na maioria dos eventos esportivos, entretanto os atletas são bombardeados com conselhos diferentes sobre calcular sua necessidade de hidratação ou até a taxa de suor.

Estudos sugerem que a sede é o gatilho mais confiável para o consumo da bebida, no entanto a indústria quer vender produtos, e por isso desaprovam a estratégia da sede e a caracterizam como inadequada.

CONEXÃO COM A INDÚSTRIA
Os acadêmicos estavam à frente da campanha contra a sede e na promoção dos perigos da desidratação
Um grupo de especialistas produziu uma declaração em uma reunião patrocinada por uma bebida esportiva que dizia: “Há uma necessidade de tornar os atletas mais conscientes dos perigos da desidratação e da importância da ingestão adequada de líquidos. A água não é o melhor fluido para reidratação, seja durante ou após o exercício ”, publicaram membros do GSSI em um artigo no British Journal of Sports Medicine.

Deve-se avaliar com olhar crítico os estudos e as recomendações de instituições e organizações do esporte que recebem vantagens e ajuda financeira de empresas de isotônicos para promoverem seus produtos.

Não há nada errado em trabalhar com a indústria, no entanto, pessoas que tenham conflito de interesse não deveriam estar escrevendo guias que vão orientar o mundo todo.

Apesar de todos os guias alertando sobre o perigo da desidratação durante o exercício, Arthur Siegel, professor na área de medicina na Harvard University e conselheiro na maratona de Boston, diz que não existem evidências a respeito de que alguém tenha morrido disso ao fazer uma maratona. Ele diz ainda que a desidratação não é um ameaçador da vida.

E de acordo com Noakes, na verdade, a desidratação é uma resposta biológica ao exercício. “Você perde água, você sente sede, você se hidrata. Fim da história.”

HIPONATREMIA
A hiponatremia é uma doença associada ao exercício e está relacionada com a queda sanguínea do sódio, tornando-se uma preocupação real para os atletas. A causa disso é profundamente debatida, se é o volume ou o tipo de fluidos que é consumido.

O maior estudo presente não encontrou associação com a composição dos fluidos consumidos, e concluiu que é o volume de líquido o principal fator que leva à hiponatremia. Com isso torna-se possível dizer que a maneira mais eficaz de prevenir a hiponatremia é evitar um balanço hídrico positivo. Outras evidências apoiam essa posição e certificam de que as bebidas esportivas não podem prevenir a hiponatremia, e podem inclusive ser a causa dependendo da quantidade consumida.

Em contrapartida as empresas de isotônicos sugerem que é a água o problema. “Para prevenir a hiponatremia e os desequilíbrios eletrolíticos, os atletas devem substituir o fluido corporal perdido por bebidas que contenham eletrólitos, como bebidas esportivas”, diz o site da MedicineNet.

A INFLUÊNCIA NAS ESCOLAS
Muitas escolas no Reino Unido começaram a encorajar as crianças a parar de 15 a 20 minutos durante o exercício para fazerem o consumo de isotônicos.

“As crianças frequentemente não sentem a necessidade de beber o suficiente para repor a perda de líquidos durante o exercício prolongado. Isso pode levar a desidratação grave”, disse o um dos membros do conselho de revisão de medicina do GSSI, patrocinado pela Gatorade.

Michael Bergeron, que também tem laços financeiros com a Gatorade disse “O fluido apropriado deve ser prontamente acessível e consumido em intervalos regulares antes, durante e depois de toda a participação esportiva”. Todas as referências a isso eram estudos financiados pela Gatorade ou que incluíam autores com laços financeiros.

GUERRA DA ÁGUA
A promoção da hidratação criou um campo de batalha entre as empresas de água e a indústria de isotônicos, ambas concordam com a necessidade de hidratação, porém há discordância sobre qual deve ser esse fluido.

Lucozade diz: “a água sozinha não é suficiente para manter a hidratação”. Powerade sugere em seu site: “água não é o suficiente”.

QUÃO BOA É A EVIDÊNCIA?
Há uma falta de evidências em relação às bebidas esportivas, Noakes diz que a razão para isso é que “Uma empresa comercial nunca faria pesquisas que não tivesse certeza da resposta antes de realizar o estudo”, diz ele.

Dos vários estudos sobre benefícios de isotônicos, apenas dois mostraram resultados positivos das bebidas esportivas: elas hidratam melhor que a água e ajudam a manter o desempenho em atletas que fazem exercícios de endurance, entretanto isso não se aplica a pessoas comuns que fazem atividade leve ou a crianças que fazem esporte uma vez na semana.

MARKETING PARA ATLETAS OU PESSOAS COMUNS?
Os estudos apresentam voluntários altamente treinados que sustentam exercícios em alta intensidade por longos períodos, e nunca usam pessoas comuns que treinam duas horas por semana, e ainda sim, esses são a maioria dos usuários das isotônicos.

INFLUÊNCIA SOBRE JORNAIS
Grande parte dos estudos foram conduzidos por cientistas com ligações financeiras com Gatorade, GSK e Coca-Cola, entretanto os conflitos de interesses não são publicados ou não são declarados.

Estudos negativos das isotônicos acabam sendo rejeitados pelos revisores e editores por razões muitas vezes desonestas.

LIGAÇÃO COM A OBESIDADE
Como os isotônicos aumentam em popularidade entre as crianças, existe uma preocupação de que seu consumo esteja contribuindo para os níveis de obesidade.

Através de uma análise feita pela Yale University’s Rudd Center for Food Policy and Obesity (Centro de Política Alimentar e Obesidade), nos Estados Unidos, descobriu-se que mais de um quarto dos pais americanos acreditam que os isotônicos são saudáveis para as crianças.

O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, por conta de crenças como essa, propôs inclusive o banimento de garrafas gigantes de refrigerante e de isotônicos.

E de acordo com Noakes, os isotônicos estão longe de transformar atletas casuais em atletas olímpicos, e deixar de consumi-las, vai deixa-lo mais magro e mais rápido.

Artigo analisado pela estagiária Tássia Angelini (1º semestre/2018)

The Truth About Sports Drinks - British Medical Journal, Julho 2012.









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